A vertigem continua

Petra Costa não levou o Oscar mas seu alerta, rechaçado por parte do Brasil, segue muito forte. A democracia brasileira está ameaçada sob um Estado que questiona nossa própria humanidade - Cena do filme 'Democracia em vertigem' de Petra Costa.
EL PAIS JAMIL CHADE - Não há como concordar com todos os trechos do filme da diretora de Petra Costa, Democracia em Vertigem, que concorreu ao Oscar neste domingo. Trata-se de um documentário feito com base em sua visão, declarada abertamente e de forma corajosa em vários trechos da obra por sua autora. Mas a realidade é que não há como negar que ela tocou num aspecto fundamental: a vertigem de nossa democracia. E por isso mexeu com uma sociedade hoje tão polarizada. O documentário não levou o Oscar, para a felicidade daqueles que não entenderam que quem venceu na categoria usou o palco global para mandar um recado ao vivo ainda mais “vermelho”: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, disse a americana Julia Reichert, que concorria com o documentário Indústria Americana, ao receber a estatueta.
EL PAIS JAMIL CHADE - Não há como concordar com todos os trechos do filme da diretora de Petra Costa, Democracia em Vertigem, que concorreu ao Oscar neste domingo. Trata-se de um documentário feito com base em sua visão, declarada abertamente e de forma corajosa em vários trechos da obra por sua autora. Mas a realidade é que não há como negar que ela tocou num aspecto fundamental: a vertigem de nossa democracia. E por isso mexeu com uma sociedade hoje tão polarizada. O documentário não levou o Oscar, para a felicidade daqueles que não entenderam que quem venceu na categoria usou o palco global para mandar um recado ao vivo ainda mais “vermelho”: “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, disse a americana Julia Reichert, que concorria com o documentário Indústria Americana, ao receber a estatueta.
O que não muda, no dia seguinte da premiação, é que a vertigem no Brasil não terminou e que a democracia continua ameaçada. Não adianta responder que o importante são os 57 milhões de votos a um candidato. Uma democracia não se faz apenas de urnas e uma República se ergue defendendo as minorias.

A
Num Estado que praticamente zera os recurso para Secretaria da Mulher e que seca os investimentos para lutar contra a violência de gênero, a vertigem é uma realidade. Quando indígenas são mortos e o Estado silencia, a vertigem cheira à cumplicidade. Quando a morte de jovens nas periferias é cinicamente comemorada, a vertigem tem cor.
Num Estado que se nega a aceitar os dados da ciência sobre o meio ambiente, a vertigem asfixia. Quando o combate à corrupção é desmontado ou direitos básicos são eliminados, a vertigem faz o chão tremer. A vertigem gera calafrios quando livros são banidos, quando ditadores são elogiados publicamente e quando a tortura é relativizada.
Num Estado em que a diplomacia é baseada em uma ideologia teológica e quando nos associamos aos países mais retrógrados do mundo em termos de direitos humanos, a vertigem questiona nossa própria humanidade.
Quando um Estado fracassa em chegar à conclusão de um assassinato político, a vertigem gera enjoo. Num país onde os espaços cívicos desaparecem e a participação da sociedade é atacada na formulação de políticas, a vertigem caminha para a cegueira.
Quando um presidente ofende a mãe de jornalistas e dá uma banana para a liberdade de imprensa, a vertigem dá náuseas.
O Oscar acabou e uma parcela do país foi dormir aliviada. Mas, independente da visão de uma cineasta, o Brasil começa uma semana ciente de que vive num estado de vertigem.
Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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Num Estado que praticamente zera os recurso para Secretaria da Mulher e que seca os investimentos para lutar contra a violência de gênero, a vertigem é uma realidade. Quando indígenas são mortos e o Estado silencia, a vertigem cheira à cumplicidade. Quando a morte de jovens nas periferias é cinicamente comemorada, a vertigem tem cor.
Num Estado que se nega a aceitar os dados da ciência sobre o meio ambiente, a vertigem asfixia. Quando o combate à corrupção é desmontado ou direitos básicos são eliminados, a vertigem faz o chão tremer. A vertigem gera calafrios quando livros são banidos, quando ditadores são elogiados publicamente e quando a tortura é relativizada.
Num Estado em que a diplomacia é baseada em uma ideologia teológica e quando nos associamos aos países mais retrógrados do mundo em termos de direitos humanos, a vertigem questiona nossa própria humanidade.
Quando um Estado fracassa em chegar à conclusão de um assassinato político, a vertigem gera enjoo. Num país onde os espaços cívicos desaparecem e a participação da sociedade é atacada na formulação de políticas, a vertigem caminha para a cegueira.
Quando um presidente ofende a mãe de jornalistas e dá uma banana para a liberdade de imprensa, a vertigem dá náuseas.
O Oscar acabou e uma parcela do país foi dormir aliviada. Mas, independente da visão de uma cineasta, o Brasil começa uma semana ciente de que vive num estado de vertigem.
Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.
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